quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lira da Noite


Perdido na estrada e com terror
Em meio à noite cantou um trovador:
- Senhor, entregai a este pecador,
Quando houver um pedaço que for,
de amor sem mágoa e dor!

E achando que falara sem temor
Tornou a dizer com mais fervor:
- Senhor, entregai a este pecador,
Quando houver um pedaço que for,
de amor sem mágoa e dor!

E ao perceber que não ecoava o seu louvor
Disse mais alto o seu sombrio clamor:
- Senhor, entregai a este pecador,
Quando houver um pedaço que for,
de amor sem mágoa e dor!

E colhendo no caminho a mais alva flor
Falou olhando-a sem dela ver a cor:
- Senhor, entregai a este pecador,
Quando houver um pedaço que for,
de amor sem mágoa e dor!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ao inferno com Otelo e Julieta


Otelo queria amar Julieta – e havia tantas mulheres piores a amar em uma quinta-feira, que seus amigos não se conformariam em saber que Otelo queria, sem mais nem menos, amar Julieta.

Prefeririam, antes, que ele bebesse e faltasse o trabalho na sexta-feira, instituindo um feriadão privativo, ou ainda, fosse trabalhar de ressaca e não conseguisse olhar por mais de dois minutos seguidos para uma tela de computador. Mas em vez disso, ele escreveu um poema na quarta-feira em que o Fluminense jogou contra a LDU e acordou feliz no dia seguinte.

Colocou a sua camisa da sorte - que ele não usou no dia do jogo - para encontrar o seu amor, em um bar em Copacabana. Queria ser descolado - mesmo que seus amigos o culpassem pelo resultado do jogo, mesmo que ele não tivesse usado todos os poderes de que dispunha para um desfecho mais favorável naquela noite, mesmo que, afinal de contas, ele fosse um egoísta e estivesse usando a sua camisa da sorte para lograr sucesso pessoal no seu primeiro encontro com Julieta.

Sim, Otelo estava decidido - e sim, Otelo era um canalha. Não tivera assistido ao jogo, não tivera tomado cerveja com os amigos e em vez de chorar de indignação, estava em casa fazendo poemas para Julieta em plena quarta-feira, o infeliz - que além de ser culpado pelo resultado do Fluminense na Libertadores da América, também o era por ser poeta em pleno dia de final de campeonato!

Nem Nelson Rodrigues escrevia em final de campeonato! Colocava suas cunhadas, noivas, cafajestes, esposas, cafetões, maridos e malandros cariocas - todos eles sem exceção – para dormir, enquanto assistia apreensivo e confiante a um Fla-Flu.

E apesar de todos os contras, de tanta gente lhe lembrar o mau agouro que havia sido seu bem sucedido primeiro encontro em uma quinta-feira, os dois namoraram e depois casaram... E ainda vivem felizes e fazem sexo!

Afinal, quem Otelo e Julieta pensam que são? Uma nova peça de Shakespeare?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Gabriela



Não sei se por amor ou por desprendimento, Gabriela arrumou suas coisas e decidiu sair. Não levou muito. Não tinha, na verdade, muito: um casaco contra o frio, um prendedor de cabelo de metal, quatro mudas de roupas dentro de uma mochila – única coisa que ela levava do seu namorado ou ex-namorado - Ela não sabia ao certo porque não terminara nenhum relacionamento e talvez nem lembrasse que em algum tempo o tivera iniciado.

Nos ouvidos zunia a única tecnologia que Gabriela transportava nessa viagem. Podia estar escutando rock’n roll ou Heavy Metal que combinavam muito bem com sua tatuagem colorida de dragão, impressa nas costas nuas. Mas em vez disso escutava Elis Regina cantando Atrás da Porta e também Nana Caymmi, mas algo que eu não saberia dizer.

Ao dar a última olhada na sala bem mobiliada, e já com sua vida sobre os ombros, Gabriela ainda teve ímpeto de alinhar o quadro torto da parede. Também quis girar mais uma vez a manivela da caixinha de música que ganhara de seu pai e que deixaria sobre a mesa prendendo o seu bilhete de despedida. Queria que o seu namorado ou ex-namorado a escutasse, ou antes, ou depois, de ler o que tinha escrito.

Ela não ajeitou o quadro, nem girou a pequena manivela da caixinha de música. Não sabia ao certo se isso era ser dramática. Nunca havia pensado a sério nisso e não estava disposta em fazê-lo agora. A idéia só tinha lhe passado pela cabeça. Então se lembrou, ainda, de tomar água e de ir ao banheiro (sem dar descarga) antes de ir embora. E pensou que não dar descarga seria a sua vingança contra o seu ex-namorado ou ainda namorado. Não que ela tivesse raiva dele. Queria só se vingar, porque achava que não poderia abandonar ninguém sem uma vingança.

Abriu a porta, pegou as suas chaves com o chaveiro de alguma concessionária de automóvel e fechou-a atrás de si. Colocou-a, depois, sob o tapete da porta principal.
No bilhete sobre a mesa e preso pela caixinha de música que seu namorado, enfim, não tocou antes de lê-lo, ou mesmo depois, estava escrito:

“Querido:
Fui comprar leite. Volto já.
Beijo.”

E o seu namorado (ou ex-namorado) só conseguia lembrar que ela era alérgica a lactose.

Gabriela gostava de clichês.